CONDOLÊNCIAS AO BRASIL

CONDOLÊNCIAS AO BRASIL

Minhas condolências ao país. Pelos catorze mortos no Ceará. Por Jair. Por julgarem o Lula, mas não julgarem o que se passou na Kiss. Os ânimos estão acirrados e o ódio escolhe cor e classe. Passam-se 130 anos da Abolição, mas a pocilga não deixa nosso tempo. Àqueles que duvidam, tome-se o Tietê. Arranha-céus para os abastados, ração para os desvalidos. Queremos ter a estatura da nossa geografia, mas não queremos que todos os brasileiros tenham um pedaço da imensidão que é esse chão. Vacas cotadas em arroba valem mais do que pessoas. Barragens valem mais do que índios. Sul vale mais que norte. Vidas são desperdiçadas fora e dentro das grades. Grades, grades, grades. Do playground para a escola. Do trabalho para casa. Da favela para a masmorra. Sonhos despedaçados. Cada um faz por si e nada se faz por ninguém. No hospital à espera de um milagre: morra. Na escola à espera de um futuro: não chega. Seja Neymar, seja Ronaldo, seja abastado. Não seja pobre e desafortunado. Quantos Brasis cabem na janela: cabe o mar, cabe o morro e cabe a favela. Cabe despertarem sob o mesmo sol, mas não cabe o bom dia. Cabe a distinção do pronome de tratamento. Não cabem os filhos na mesma escola. Empregados farão o relógio girar ao contrário, para caberem mais horas e menos salário. Para os já velhos, seu tempo não chega. Não chegará aos 15, 30 ou 45. Tampouco aos 60, 65, 75. Debute no emprego, e também seja senil nele. Porque a tragédia nunca chega sozinha. Venderão seu solo, depois seu subsolo. Seus aquíferos também. Não restará nada, a não ser lamúria, eco do vazio. Querem Brazil, porque odeiam o Brasil. Sweig disse que o Brasil tinha futuro. Faz tanto tempo. O futuro passou meteórico e, desconfiado, seguiu seu curso. Preferiu não parar. Talvez ainda não fosse a hora. Pensou assim porque enquanto muitos andam de helicóptero, outros andam descalços. Porque o êxito dos descalços despertou a invídia. Porque meteram um pato no meio da Paulista. Porque o sotaque é o estigma que acompanha os nordestinos. Neste momento, nada mais apropriado do que apropriar-se da etimologia e sentir dor junto, junto com o Brasil.

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